segunda-feira, 5 de maio de 2025

O Boneco de Sal

Numa vila esquecida entre morros e pastos secos, o verão era marcado por um estranho festival: o Enterro do Boneco de Sal.

Todo ano, no solstício, os moradores se reuniam na praça principal, colocavam um boneco humanoide feito inteiramente de sal grosso dentro de um buraco raso, e sussurravam preces esquisitas, como:

— Que não volte... que não volte...

Lucas era da cidade grande. Visitava os avós naquele ano, meio entediado com a vida rural e muito curioso com as esquisitices locais. Quando viu o tal boneco ser enterrado sob aplausos nervosos, achou tudo ridículo.

— Sério que vocês acham que um boneco feito de sal vai "voltar"? — zombou para um grupo de meninos locais.

sábado, 3 de maio de 2025

A Casa da Luz Profana

A Casa da Luz Profana

Padre Giuseppe chegou a São Paulo com o rosto curvado pela vergonha e os olhos ardendo de culpa — mas não arrependimento. Viera enviado de Roma não como missionário, mas como exílio. Seus superiores, fartos das confissões noturnas, dos sorrisos femininos nos bancos da paróquia e das crias clandestinas espalhadas pelas vilas da Toscana, resolveram afastá-lo discretamente.

Disseram-lhe que o Brasil era campo fértil para penitência. E para o silêncio.

A paróquia ficava no bairro do Bixiga, entre velhas casas italianas e becos que pareciam sussurrar. Lá, Giuseppe pregava com eloquência, falava do fogo do inferno com assustadora familiaridade, e passava os dias cumprindo ritos... enquanto os olhos, pecavam.

Mas nas madrugadas — sempre nas madrugadas — saía em trajes civis e descia por ruelas tortuosas até encontrar uma velha casa com janelas vermelhas. Não havia nome na fachada, apenas uma porta entreaberta que exalava cheiro de vinho barato, tabaco e luxúria.

terça-feira, 29 de abril de 2025

O Bode de Mendes

O garoto segurava firme a mão do pai enquanto desciam pela garganta da caverna. A entrada mal se distinguia na encosta rochosa, coberta por musgos e raízes, como uma boca que preferia ficar fechada. O pai sorria, com aquele brilho nos olhos de quem conhecia um segredo.

— Não tenha medo, Tomás — disse ele. — Lá dentro tem só silêncio e pedra. É um lugar seguro.

A lanterna emitia uma bruxuleante luz amarelo-quente. A caverna parecia respirar em silêncio. A cada passo, a escuridão os engolia mais.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Perseguição Sombria

Era madrugada alta quando Ronaldo pisou fundo na estrada deserta, a caminho do Rio de Janeiro. No banco do passageiro, um sorte de muambas do Paraguai — relógios digitais, perfumes "franceses" e a caixa do seu recém-instalado tesouro pessoal: um rádio automotivo novo, reluzente, soltando as batidas eletrônicas de uma música pop recém-lançada.

Finalmente conseguiu comprar algo de bom e diferente para trazer para a turma a um preço decente. Ronaldo estava realmente satisfeito. As coisas estavam muito difíceis, mas ele sentia que estava conseguindo se virar.

O céu estava limpo, mas um vento estranho varria a pista com cada vez maior frequência, uivando entre as árvores retorcidas. Ele aumentou o volume, tentando ignorar a sensação incômoda que crescia com a solidão da estrada.

Foi quando viu o ônibus.

terça-feira, 22 de abril de 2025

A Lenda do Vinho Casillero del Diablo

Dizem que tudo começou em 1883, quando Dom Melchor de Concha y Toro trouxe da França as primeiras videiras que mudariam o destino daquelas terras chilenas, que cruzaram o oceano num navio envolto por brumas e silêncios, observadas apenas pelas gaivotas e pelo som do vento sobre o mar. Eram cepas nobres, lendárias, cujas raízes fincaram-se em solo fértil como se já o conhecessem.

Com o tempo, aquelas uvas deram origem a um vinho profundo, escuro, quase místico. Dom Melchor, consciente de sua preciosidade, separou algumas das melhores garrafas e as guardou sob chave, em um lugar secreto de sua bodega — um subterrâneo sombrio, conhecido apenas por ele.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

A Garra do Macaco

Parte I

Lá fora, a noite estava fria e chuvosa, mas na pequena sala da Villa Laburnam, as cortinas estavam fechadas e o fogo ardia vivamente. Pai e filho jogavam xadrez — o primeiro, cujas ideias sobre o jogo envolviam mudanças radicais, colocava seu rei em perigos tão agudos e desnecessários que até provocavam comentários da senhora de cabelos brancos que tricotava pacientemente ao lado da lareira.

— "Escute esse vento," disse o Sr. White, que, tendo percebido um erro fatal tarde demais, agora tentava evitar que o filho o notasse.

— "Estou ouvindo," respondeu o outro, fitando o tabuleiro com seriedade enquanto estendia a mão. "Xeque."

domingo, 20 de abril de 2025

Nós vivemos...novamente!

Depois de muito deliberar, resolvi fazer mais uso do blog e conteúdo que me foram herdados e retomar o Contos do Mausoléu, mas de agora de uma forma focada, de fato, em histórias horripilantes mesmo.

O nosso andamento daqui pra frente, no primeiro momento, vai ser repassar o conteúdo que tem aqui, que for aproveitável, para o VaLeW, seja pro Jogos de Zumbi, Laminha, Bolonha Club, Games de Corrida ou onde for conveniente. Isso significa que, no momento, teremos aqui no Contos de Mausoléu o total de 1 (um) conto, embora isso possa mudar eventualmente, mesmo sem termos finalizado o arquivamento e a curadoria do conteúdo em outros sites.

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